segunda-feira, 13 de setembro de 2010

De onde brota saudades

De onde brota saudades


Cheguei em casa hoje de viagem às 5 e qualquer coisa da manhã, domingo.  Sobre minha cama, além da minha mulher, havia algo novo, uma daquelas trepadeiras que a gente escora as costas para ler ou conversar e também bota as pernas elevadamente para aliviar cansaço e varizes. E, claro, como era manhã pós-madrugada passada em poltrona de ônibus, fui agasalhar e aliviar pés e pernas. Beleza! Depois do namoro, café da manhã, cigarro, olhadela no mundo, volto à cama. Supimpa! Chega-me um cheiro de saudade! E fico a investigar de onde brota aquele sentimento de nostalgia, de tristeza conformada, boa e má. A memória afetiva se apresenta e me diz: "Tu te lembras da primeira vez que botastes as costas e os pés num negócio desses?". Aí lembrei do que me despertava saudade e aquela sensação de aprisionamento no coração, dor talvez, mas com certeza tristeza, melancolia, nostalgia, essas coisas que a alma da gente sente. Então lembrei das tardes de domingo que passávamos na casa de um casal de amigos e foi lá que vi/usei pela primeira vez uma trepadeira de pés, encostadeira de costas, e aí caiu a ficha, como ainda costumamos dizer, apesar de não mais a usar, digo a ficha. E meu amigo foi embora, correndo, morar na saudade. Engraçado é que sem que eu fizesse qualquer comentário acerca da trepadeira de pés/encosto de costas espontaneamente, neste domingo à tarde minha mulher me fez transportar para aquele tempo, aquela casa, mais uma vez neste domingo, a casa de Arlindo e Dores. É que minha mulher fez bolo de cenoura tal qual ela e Dores faziam nos domingos à tarde, tarde dos anos noventa, de farras, piadas, risadas, de conversas tristes e alegres, às vezes sérias, como conversam os amigos íntimos, pessoas que se amam e prezam pela companhia. Aquilo tudo naquele tempo parecia tão eterno! Aquela amizade, aquelas pessoas juntas, nossos filhos brincando na sua infância tranquila, tomando banho de mangueira, mexendo na terra... Mas não há eterno nessa vida que Cronos não desfaça! Ou, como disse Renato Russo: "O pra sempre sempre acaba".
Arlindo se foi para o eterno da eternidade última. Nós fomos morar em Cajazeiras, depois São Carlos, ainda Cajazeiras e depois Fortaleza. Dores e suas filhas também se mudaram para Barreiras, São Paulo, Salvador, nossos filhos cresceram e nós, nem mesmo na distância, não nos comunicamos mais. Ficou a saudade daquele tempo, saudade da nossa amizade, saudade daquelas pessoas e, então, com tanta coisa para recordar, uma almofada onde se apoia pés e costas, um bolo de cenoura, coisas corriqueiras, aparentemente sem muita importância, aparecem com a capacidade de fazer brotar saudades. Então, nesse caso, só nos resta saborear a saudade e cantarolar Caetano na sua “Oração do Tempo”: "Tempo, tempo, tempo, és um senhor tão bonito/Tempo, tempo, tempo, faz as pazes comigo".

5 comentários:

  1. Dorgival, não poderia silenciar diante de um tão belo texto no qual me contemplo. Não diria que seu texto traz verdades porque isso esvaziaria sua beleza. prefiro diser que nós,um dia, recostados nesse sofá de encostar costas e aliviar a as pernas, muitas vezes, tentamos traçar um bordado-vida que tenha como resultado uma belo desenho, e à vezes, na tessitura desse bordado, extrapolamos o risco bem delineado que nos propomos seguir. Assim, erramos e, de repente, descobrimos que outro desenho surge reconfigurando a trajetória anterior. Mas não perdemos o bordado, talvez perdamos aquilo que idealizamos. Olhando com cuidado, talvez seja possível descobrir que a beleza do bordado está na ousadia de quem tem a cotrgem de reconfigurá-lo. MAs também está naqueles que resolvem seguir à risca o traçado planejado. Somos assim, dois antigos casais que se desteceram no fio da vida, mas que, do jeito que cada um escolheu -dentro do seu possível e dos seus limites - expõe a seu modo um bordado imperfeitamente belo: tecido pela ausência, pelo crescimento dos filhos, pelas conquistas e perdas, pelo medo e pela coragem. Descansemos nossas pernas cansadas... Elas às vezes não se aguentam de tão longas que são nossas caminhadas...Obrigada pela lembrança e fique certo que vocês também são presença constante em minha emoção e saudade!!!

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  2. Nossa, que linda, Dores suas palavras, seu texto! Adorei demais, viu, fiquei emocionado com a sua aparição e sua visão, penso assim como você,sempre pensamos muito próximos; mas aqui, falando de lembranças e saudades, o passado é q me prende, pois sei que a vida, para usar a metáfora que vc empregou, é um bordado constante, um eterno devir sobre o qual a gente vai tateando contornos, possíveis. Fiquei emocionado com sua aparição, só estranhei o Dorgival, esperava por um Dorge, mais intimo. hehehehehehhe. Bjs, abraços, saudades de ti, de nós!

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  3. Boa sorte nessa empreitada litero-virtual, amigo. Estarei sempre por aqui para não deixar tanta saudade rs.

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  4. Parabéns! Lindo texto, Dorge! Saudade é isso mesmo: transpõe a poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos. Eufemismos ou hipérboles à parte, saudade vem, saudade vai, seja de pessoas, de lugares, de bons momentos... Ah, como dói em fins de tarde ou em dias cinzentos de inverno mas, às vezes, ela chega sorrateiramente e independe de horas, minutos, segundos, basta nos encostarmos numa das esquinas da memória. A saudade se basta, ela é capaz de mover um turbilhão de sentimentos dentro de nós. Reconheçamos porém: triste é aquele que não tem de quem/que sentir saudade!

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  5. Soneto de aniversário

    Passem-se dias, horas, meses, anos
    Amadureçam as ilusões da vida
    Prossiga ela sempre dividida
    Entre compensações e desenganos.

    Faça-se a carne mais envilecida
    Diminuam os bens, cresçam os danos
    Vença o ideal de andar caminhos planos
    Melhor que levar tudo de vencida.

    Queira-se antes ventura que aventura
    À medida que a têmpora embranquece
    E fica tenra a fibra que era dura.

    E eu te direi: amiga minha, esquece...
    Que grande é este amor meu de criatura
    Que vê envelhecer e não envelhece.

    Vinicius de Moraes

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