segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Constatações de bordo

Não dou do tipo viajante, e de tanto andar de um lado a outro, me confesso, hoje, atraído por um sossegar tranquilo acostado numa casa com os meus parentes, meus livros, discos e filmes. Mas, atendendo a pedidos e à própria curiosidade, e também ao status de viajar pra Europa, coisa meio tupiniquim colonizado, decidi ir a Portugal, Inglaterra e Espanha. Quando digo que não ghosto de viajar, na verdade eu não ghosto é do percurso, me cansa, enfada e me aborrece trajetos e deslocamentos. Pois bem, foram 7 horas dentro de um avião

domingo, 19 de setembro de 2010

Biografia Musical

Todo mundo, de algum jeito, carrega músicas que são marcas na sua vida, registro e lembrança de episódios marcantes. Nesse caso, ao ouví-las, ou apenas lembrar de um refrão faz a gente viajar ao passado, significando rever, reviver, relembrar de coisas, pessoas, acontecimentos. A trilha sonora da minha vida é extensa, pois desde muito cedo adiquiri uma sensibilidade musical muito forte. Creio que a primeira música com a qual me emocionei, tipo: ouvi, parei, pensei, refleti e chorei foi O ÉBRIO, de Vicente Celestino: "Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer...". Depois disso, quantos porres tomei buscando o esquecimento de alguém! Noutro tempo bem distante da minha infãncia, enquanto Djavan cantava me mandando sorrir, numa versão de SMILE, de Charles chaplin, chorei e bebi durante uma tarde inteira. Acho que tenho um espírito meio grego, dado à tragédia. Sou sensível às minhas dores e às dores alheias, principalmente às dores da alma. Assim, nos dias de hoje Altemar Dutra e Los Hermanos me deixam extasiado retratando o meu excesso de sentimentalidade.
Ainda na infância, lembro-me de cair em prantos ao ouvir Teixeirinha cantar CORAÇÃO DE LUTO. Ficava imaginando aquele menino chegando da escola e encontrando a mãe queimada, morta em sua casa; me transportava para o seu lugar e sofria me vendo órfão, sinônimo de abandonado, sozinho. A solidão ou a expectativa dela sempre me exasperou e por isso derramava rios de lágrimas ao aouvir meu pai cantar "... os olhinhos do menino marejou quando o seu pai viajou...", de  Luiz Vieira. Nessa ideia de transposição de lugar, também muito chorei ouvindo Luiz Gonzaga cantar a sua TRISTE PARTIDA, imaginando a saudade que aquela menina ia sentir do seu gato e dos seus brinquedos.
O bom é que há músicas para todas as situações e para todos os sentimentos. Lembro-me da primeira vez que ouvi o Queen cantando WE ARE THE CHAMPIONS. Sinônimo de impulso de vida, tipo: tá foda mas eu sobrevivo e vencerei, e assim quando fico fraco e abatido "puxo" essa música e deixo rolar no meu aparelho de cd ou dvd ou na memória e então as coisas mudam de figura. Hoje, quando estou meio down, vivenciando os dramas e dilemas dos 40 e tantos anos, escuto Los Hermanos cantar O VELHO E O MOÇO, e então fico melhor ou pior, mas com a sensação boa de que estou vivo, sabendo que "não sei medir nem tempo e nem medo". Mas meu maior pranto foi escutando Chico Buarque de Holanda cantarolar nos meus ouvidos EU TE AMO, enquanto desarrumava guarda-roupa, separava e recolhia as minha coisas.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

De onde brota saudades

De onde brota saudades


Cheguei em casa hoje de viagem às 5 e qualquer coisa da manhã, domingo.  Sobre minha cama, além da minha mulher, havia algo novo, uma daquelas trepadeiras que a gente escora as costas para ler ou conversar e também bota as pernas elevadamente para aliviar cansaço e varizes. E, claro, como era manhã pós-madrugada passada em poltrona de ônibus, fui agasalhar e aliviar pés e pernas. Beleza! Depois do namoro, café da manhã, cigarro, olhadela no mundo, volto à cama. Supimpa! Chega-me um cheiro de saudade! E fico a investigar de onde brota aquele sentimento de nostalgia, de tristeza conformada, boa e má. A memória afetiva se apresenta e me diz: "Tu te lembras da primeira vez que botastes as costas e os pés num negócio desses?". Aí lembrei do que me despertava saudade e aquela sensação de aprisionamento no coração, dor talvez, mas com certeza tristeza, melancolia, nostalgia, essas coisas que a alma da gente sente. Então lembrei das tardes de domingo que passávamos na casa de um casal de amigos e foi lá que vi/usei pela primeira vez uma trepadeira de pés, encostadeira de costas, e aí caiu a ficha, como ainda costumamos dizer, apesar de não mais a usar, digo a ficha. E meu amigo foi embora, correndo, morar na saudade. Engraçado é que sem que eu fizesse qualquer comentário acerca da trepadeira de pés/encosto de costas espontaneamente, neste domingo à tarde minha mulher me fez transportar para aquele tempo, aquela casa, mais uma vez neste domingo, a casa de Arlindo e Dores. É que minha mulher fez bolo de cenoura tal qual ela e Dores faziam nos domingos à tarde, tarde dos anos noventa, de farras, piadas, risadas, de conversas tristes e alegres, às vezes sérias, como conversam os amigos íntimos, pessoas que se amam e prezam pela companhia. Aquilo tudo naquele tempo parecia tão eterno! Aquela amizade, aquelas pessoas juntas, nossos filhos brincando na sua infância tranquila, tomando banho de mangueira, mexendo na terra... Mas não há eterno nessa vida que Cronos não desfaça! Ou, como disse Renato Russo: "O pra sempre sempre acaba".
Arlindo se foi para o eterno da eternidade última. Nós fomos morar em Cajazeiras, depois São Carlos, ainda Cajazeiras e depois Fortaleza. Dores e suas filhas também se mudaram para Barreiras, São Paulo, Salvador, nossos filhos cresceram e nós, nem mesmo na distância, não nos comunicamos mais. Ficou a saudade daquele tempo, saudade da nossa amizade, saudade daquelas pessoas e, então, com tanta coisa para recordar, uma almofada onde se apoia pés e costas, um bolo de cenoura, coisas corriqueiras, aparentemente sem muita importância, aparecem com a capacidade de fazer brotar saudades. Então, nesse caso, só nos resta saborear a saudade e cantarolar Caetano na sua “Oração do Tempo”: "Tempo, tempo, tempo, és um senhor tão bonito/Tempo, tempo, tempo, faz as pazes comigo".